10 de dez. de 2011

Não há nada tão ruim...

Digam o que disserem o mal deste início de século é o desemprego. E isso, infelizmente, não é um mal que atinge somente o nosso país. Mesmo os chamados países de primeiro mundo estão passando por um surto de desemprego que talvez nunca tenha se ouvido falar.
Como um vírus que se apodera de nossos corpos, os milhares de desocupados – ou “vagabundos” como disse aquele nosso ex-presidente – vão tomando conta do mundo. E a cada dia tem mais. São bancos que quebram, empresas aéreas que caem (sem trocadilho) e coisas assim. Cá entre nós, é uma situação constrangedora perguntarem, numa pesquisa, qual é a sua ocupação e você ser obrigado a responder “desempregado”. O entrevistador já começa a olhar pra você de outra maneira. Um olhar de repúdio que faz você ficar mais pra baixo do que você já está.
Particularmente eu prefiro fazer a minha jornada com sol alto. Por mais calor que esteja fazendo, evita certas humilhações. Digo isso por experiência própria. Fui com um amigo (sabe aquele amigo-irmão de todas as horas?) entregar alguns currículos em algumas empresas, dentre as quais, uma grande rede de supermercados, com o clima já um pouco frio e céu nublado. Fomos até uma estação de transbordo, já que lá havia muito mais opções de ônibus e não corríamos o risco de nos molharmos caso chovesse. Assim que entramos no ônibus choveu de uma maneira que ninguém poderia esperar, assim como nós nem poderíamos imaginar que a nossa sorte acabaria por ali. Pelo menos a minha sorte.
Até que pegamos o ônibus bem rápido, mas foi só isso. A sorte começou a mudar já quando fomos descer. Havia uma senhora já de certa idade entre mim e o meu nobre colega. Enquanto o ônibus ia do ponto em que estava até o que desceríamos perguntei para a tal senhora se ela desceria no mesmo ponto que eu. Ela respondeu que sim, da mesma forma que eu respondi às três estudantes secundaristas quando me fizeram a mesma pergunta. Acontece que a tal senhora, depois que o ônibus saiu do ponto, disse que não era ali que ela desceria, e sim no próximo ponto. Dessa maneira, o meu colega desceu no ponto certo enquanto que eu acabei descendo no outro. “Podia ser pior”, pensei com os meus botões.
A chuva já não estava tão forte assim, é bem verdade. Agora já não passava de um leve chuvisco. Mas, como acontece em toda cidade grande, a rua estava alagada e perigava passar algum carro e me dar um belo banho. Tratei de atravessar a rua antes que algum motorista espírito de porco tentasse me dar um banho e voltei andando com aquele leve chuvisco batendo no meu rosto. Cheguei no ponto em que eu deveria ter descido e encontrei o safado do meu colega rindo do meu sofrimento, o que só fez a minha raiva pelo que aquela velha havia feito apenas aumentar. A frase “podia ser pior” ainda não me saía da cabeça.
Entregamos os tais currículos e saímos. Enquanto nós passávamos pelo estacionamento do supermercado e eu guardava alguns documentos, o meu colega, que observava a avenida bem à nossa frente, disse “olha a nossa sorte indo embora!”. No momento em que eu levantei a cabeça vi o nosso tão estimado ônibus saindo do ponto. Se não fosse o fato de termos algumas opções eu diria que aquele não era um bom dia para sair da cama. É verdade que as opções que sobraram nos fariam andar muito mais até chegar em casa debaixo de chuva, mas e daí? Podia ser pior.
Depois de uma longa espera a nossa segunda opção passou. Fomos em pé, é claro (ônibus lotado é dose). Descemos no ponto – o certo dessa vez – e enquanto íamos pra casa veio um carro na nossa direção. Se juntarmos carros em movimento, pista com poças d’água pós-chuva e transeuntes inocentes em um campo aberto o resultado da equação não será muito agradável. “Oh, não!” – disse eu – “Uma poça d’água grande! Vamos dar apenas alguns pequenos passos para trás para não nos molharmos!”. Demos os famosos três passos pra trás. E não é que o maldito motorista também viu a poça grande? Desviou dela e passou por uma poça pequena. Pequena, mas ordinária. Assim que o carro passou por cima dela a tal poça espirrou água somente em cima de nós e em nenhuma direção mais. Podia ser pior.
Com o rosto totalmente molhado e parte da roupa também, tento o apoio do meu colega para xingar o motorista que nos molhou, a poça e até mesmo aquela velha maldita que me fez descer no ponto errado. Ao me virar para ele percebo que ele tem apenas duas gotas na roupa. Duas gotas e nada mais! Ou seja, o desgraçado ficou escondido atrás de mim para evitar ser molhado. Foi como se eu estivesse numa das histórias em quadrinhos do Maurício de Sousa.
Fui o resto do caminho calado e de cara amarrada voltando a falar apenas com minha mãe em casa. E, ainda assim, meia hora depois de ter chegado em casa. Mesmo com todos esses contratempos aprendi algumas lições: nunca procurar emprego quando estiver chovendo, não ficar atrás de idosos em ônibus, e, talvez a mais importante delas, foi a nunca, jamais, em hipótese alguma dizer “podia ser pior”, pois não há nada tão ruim que não possa piorar.

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