Digam
o que disserem o mal deste início de século é o desemprego. E
isso, infelizmente, não é um mal que atinge somente o nosso país.
Mesmo os chamados países de primeiro mundo estão passando por um
surto de desemprego que talvez nunca tenha se
ouvido falar.
Como
um vírus que se apodera de nossos corpos, os milhares de desocupados
– ou “vagabundos” como disse aquele nosso ex-presidente – vão
tomando conta do mundo. E a cada dia tem mais. São bancos que
quebram, empresas aéreas que caem (sem trocadilho) e coisas assim.
Cá entre nós, é uma situação constrangedora perguntarem, numa
pesquisa, qual é a sua ocupação e você ser obrigado a responder
“desempregado”. O entrevistador já começa a olhar pra você de
outra maneira. Um olhar de repúdio que faz você ficar mais pra
baixo do que você já está.
Particularmente
eu prefiro fazer a minha jornada com sol alto. Por mais calor que
esteja fazendo, evita certas humilhações. Digo isso por experiência
própria. Fui com um amigo (sabe aquele amigo-irmão de todas as
horas?) entregar alguns currículos em algumas empresas, dentre as
quais, uma grande rede de supermercados, com o clima já um pouco
frio e céu nublado. Fomos até uma estação de transbordo, já que
lá havia muito mais opções de ônibus e não corríamos o risco de
nos molharmos caso chovesse. Assim que entramos no ônibus choveu de
uma maneira que ninguém poderia esperar, assim como nós nem
poderíamos imaginar que a nossa sorte acabaria por ali. Pelo menos a
minha sorte.
Até
que pegamos o ônibus bem rápido, mas foi só isso. A sorte começou
a mudar já quando fomos descer. Havia uma senhora já de certa idade
entre mim e o meu nobre colega. Enquanto o ônibus ia do ponto em que
estava até o que desceríamos perguntei para a tal senhora se ela
desceria no mesmo ponto que eu. Ela respondeu que sim, da mesma forma
que eu respondi às três estudantes secundaristas quando me fizeram
a mesma pergunta. Acontece que a tal senhora, depois que o ônibus
saiu do ponto, disse que não era ali que ela desceria, e sim no
próximo ponto. Dessa maneira, o meu colega desceu no ponto certo
enquanto que eu acabei descendo no outro. “Podia ser pior”,
pensei com os meus botões.
A
chuva já não estava tão forte assim, é bem verdade. Agora já não
passava de um leve chuvisco. Mas, como acontece em toda cidade
grande, a rua estava alagada e perigava passar algum carro e me dar
um belo banho. Tratei de atravessar a rua antes que algum motorista
espírito de porco tentasse me dar um banho e voltei andando com
aquele leve chuvisco batendo no meu rosto. Cheguei no ponto em que eu
deveria ter descido e encontrei o safado do meu colega rindo do meu
sofrimento, o que só fez a minha raiva pelo que aquela velha havia
feito apenas aumentar. A frase “podia ser pior” ainda não me
saía da cabeça.
Entregamos
os tais currículos e saímos. Enquanto nós passávamos pelo
estacionamento do supermercado e eu guardava alguns documentos, o meu
colega, que observava a avenida bem à nossa frente, disse “olha a
nossa sorte indo embora!”. No momento em que eu levantei a cabeça
vi o nosso tão estimado ônibus saindo do ponto. Se não fosse o
fato de termos algumas opções eu diria que aquele não era um bom
dia para sair da cama. É verdade que as opções que sobraram nos
fariam andar muito mais até chegar em casa debaixo de chuva, mas e
daí? Podia ser pior.
Depois
de uma longa espera a nossa segunda opção passou. Fomos em pé, é
claro (ônibus lotado é dose). Descemos no ponto – o certo dessa
vez – e enquanto íamos pra casa veio um carro na nossa direção.
Se juntarmos carros em movimento, pista com poças d’água
pós-chuva e transeuntes inocentes em um campo aberto o resultado da
equação não será muito agradável. “Oh, não!” – disse eu –
“Uma poça d’água grande! Vamos dar apenas alguns pequenos
passos para trás para não nos molharmos!”. Demos os famosos três
passos pra trás. E não é que o maldito motorista também viu a
poça grande? Desviou dela e passou por uma poça pequena. Pequena,
mas ordinária. Assim que o carro passou por cima dela a tal poça
espirrou água somente em cima de nós e em nenhuma direção mais.
Podia ser pior.
Com
o rosto totalmente molhado e parte da roupa também, tento o apoio do
meu colega para xingar o motorista que nos molhou, a poça e até
mesmo aquela velha maldita que me fez descer no ponto errado. Ao me
virar para ele percebo que ele tem apenas duas gotas na roupa. Duas
gotas e nada mais! Ou seja, o desgraçado ficou escondido atrás de
mim para evitar ser molhado. Foi como se eu estivesse numa das
histórias em quadrinhos do Maurício de Sousa.
Fui
o resto do caminho calado e de cara amarrada voltando a falar apenas
com minha mãe em casa. E, ainda assim, meia hora depois de ter
chegado em casa. Mesmo com todos esses contratempos aprendi algumas
lições: nunca procurar emprego quando estiver chovendo, não ficar
atrás de idosos em ônibus, e, talvez a mais importante delas, foi a
nunca, jamais, em hipótese alguma dizer “podia ser pior”, pois
não há nada tão ruim que não possa piorar.
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